quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Home Office: em casa sem culpa



Além dos ganhos de produtividade e qualidade de vida do funcionário, os regimes de trabalho remoto, como o home office, deixam evidente que há uma mudança em curso no cenário de gestão. Sai de cena o controle estabelecido pelo relógio-ponto e entra o comprometimento do funcionário.

A cada ano, 450 mil pessoas veem mais os filhos no Brasil. E se não têm filhos, a opção por trabalhar em casa é motivada por mais qualidade de vida, mais flexibilidade ou mesmo para fugir do trânsito. Os dados da IDC mostram que até o final deste ano, 58 milhões de pessoas no mundo farão parte de algum programa de home office de empresas que optaram também por usufruir das benesses da tecnologia e expandir os limites das relações de trabalho. O desafio, segundo os gestores, é não se isolar e não se sentir culpado por trabalhar em casa e acabar trabalhando mais do que o necessário.




A Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades (SBTT) apresenta uma lista de empresas no País que permitem, incentivam ou mantêm programas de trabalho em casa. AT&T, Symantec, Cisco, Dell e Polycom são algumas das companhias de tecnologia que compõem a lista. A evidência de que a vertical de negócios não é determinante no estabelecimento do trabalho remoto está em ver empresas como Natura, Shell e Gol Linhas Aéreas encorpando o rol que tradicionalmente era de organizações do setor de tecnologia.



Mas não é apenas mandar o funcionário usar a tomada do escritório da própria casa que determina uma relação de trabalho sustentável no sentido mais amplo do termo. A mudança de paradigma está em jogo quando as relações de trabalho são revistas e as empresas abandonam métricas arcaicas, como a marcação de ponto, em função de compartilhar com os funcionários a responsabilidade pelas metas e indicadores da companhia. Isto afeta diretamente a autoestima de quem trabalha.



O arquiteto e urbanista André Brik dirige um escritório de marketing e design, além de ser um dos fomentadores da cultura do home Office no Brasil. Brik é um dos parceiros da SBTT e mantém um site que traz orientações para pessoas em busca de um home office para chamar de seu.



O espectro de aplicações e equipamentos que permitem o trabalho remoto varia tanto, que é possível pensar que com um computador, uma conexão de internet, um headset de 20 reais e uma conta em um site gratuito de comunicação via VoIP, uma pessoa já estaria pronta para trabalhar de casa, dependendo do tipo de função que exerce.



Se não fosse a postura dos gestores, a cultura do teletrabalho seria muito mais difundida no País, em função do avanço evidente das telecomunicações e das ferramentas disponíveis no mercado, segundo Brik. “Sinto que existe uma grande necessidade de controle e, por conta disso, os mecanismos de gerenciamento são desatualizados”, afirma Brik. “As empresas trabalham com o sistema de ponto, em vez de gerenciar metas ou prazos de entrega de projetos.”



Sem dúvida, o principal obstáculo é o modelo mental. E a superação disso vem com a consolidação de resultados como o da fornecedora de serviços de benefícios, Ticket, que transformou 150 vagas em posições remotas. Em cinco anos, a empresa contabilizou uma economia de 3,5 milhões de reais anuais, apenas com os alugueis das 25 filiais físicas que foram desativadas. O caso, apontado por Brik como um dos principais indícios do sucesso do home office no País, ainda ostenta o aumento de 40% na conquista de novos contratos com a redefinição do modelo de trabalho.



Algumas características são fundamentais, segundo Brik, para o sucesso de se empreender uma jornada que rompe com os padrões estabelecidos pelas relações de trabalho do último século. Ele descreve o funcionário que tem sucesso trabalhando em casa como uma pessoa autogerenciável, organizada, compromissada, disciplinada e treinada para trabalhar de casa.



Por outro lado, há também aqueles que preferem, mesmo tendo o home office à disposição, manter a rotina do escritório. “Quem prefere trabalhar no escritório tradicional tem medo da solidão e do isolamento que o home office pode apresentar”, explica Brik. “Porém, este problema poderia ser solucionado com a inscrição em cursos, assistindo palestras ou marcando encontros com ex-colegas, por exemplo.”



Valores



A quebra destes paradigmas está no DNA da Cisco, afirma a diretora de RH da empresa, Rose Mary Morano. Segundo ela, as soluções de mobilidade fabricadas pela empresa são as ferramentas para atingir o objetivo de conectar pessoas. Indo além do conceito de home office, a executiva propõe a ideia de virtual office, que é um conjunto de ferramentas tecnológicas que permitem o acesso do funcionário à estação virtual de trabalho de qualquer lugar que ele esteja, não necessariamente de casa.



Rose Mary enfatiza que a prática do home office, que está muito mais ligada à cultura do que ao negócio da empresa, depende fundamentalmente de três fatores: é preciso que a ideia esteja na cultura da empresa, ter sistemas compatíveis e bons processos. “É importante ter bons sistemas, se não, não é possível fazer a gestão, o acompanhamento e a verificação da entrega dos objetivos”, afirma Rose Mary. “Mas, antes de tudo, é preciso fazer uma transformação cultural na empresa. Porque não adianta implantar um programa de home office e continuar atuando com o paradigma de uma empresa essencialmente física.”



Para que uma empresa possa estar apta a implantar um sistema de trabalho remoto, é preciso abandonar a cultura do controle pela do comprometimento, segundo a executiva. De fato, o controle estabelece relações mais estreitas em termos de espaço físico, por outro lado, o comprometimento gera mais proximidades de objetivos entre gestor e funcionários.



“Não é a implementação de uma forma de trabalho apenas”, complementa Rose Mary. “Está muito mais atrelado à convicção da empresa de que o sucesso dela pode depender desta mudança.”



Além de dirigir a equipe de recursos humanos da empresa no País, Rose Mary ainda aceita convites para acompanhar consultorias que a fabricante dá aos clientes. A executiva incursiona pelas necessidades de seus clientes e os motiva a avaliar a disponibilidade das pessoas para a mudança, uma vez que, desta postura, depende o sucesso ou o insucesso do negócio para o cliente.



Culpa



O gerente de projetos da Cisco, Maurício Gaudêncio, lembra que desde 2000, quando a empresa começou a implantar o sistema de escritórios remotos, os funcionários já se preparavam com um sistema que o executivo apelidou de baialess (adapatção livre para o inglês de “sem baia” ou “sem estação de trabalho fixa”). Desde então, a equipe está bastante adaptada ao estilo mais livre de trabalhar, segundo ele. “Nos dias em que trabalhamos no escritório, chegamos o mais cedo possível, porque quanto mais cedo se chega, mais longe do chefe dá pra ficar”, brinca o executivo. “Mesmo podendo trabalhar de casa o tempo todo, a gente costuma ir para o escritório uma ou duas vezes na semana, para não se isolar e para resolver questões pontuais.”



Mas o maior vilão desta vida mais livre é a culpa que alguns funcionários sentem por não estarem sendo acompanhados de perto pelas lideranças, segundo Gaudêncio. E este sentimento pode colocar em risco os ganhos em qualidade de vida que o sistema propõe, uma vez que alguns funcionários acabam trabalhando mais do que se estivessem no escritório.



“Disciplina é algo que só se aprende fazendo”, diz o executivo. “É muito importante que ela fique clara para o funcionário e para o líder. Há métricas bem definidas para isso, então não importa se o funcionário atingiu os objetivos em casa, no escritório ou em Porto Seguro.”



Gaudêncio faz parte da equipe de mais de 400 funcionários distribuídos em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, em regime de virtual office da Cisco. O executivo, que passa ao menos uma semana do mês em viagens pela América Latina, sabe que a relação com seu filho não seria a mesma se trabalhasse no escritório.

Fidelidade maior do funcionário, produtividade maior e mais qualidade de vida são as razões pelas quais Gaudêncio acredita que as relações de trabalho mais flexíveis e, mais especificamente, o home office, é uma tendência da qual não se pode mais fugir.

Por Danilo Sanches | CRN Brasil - 24 Novembro de 2011


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